Noventa mil vozes em harmonioso coro dissonante.A sinfonia de prazeres tornara-se agora uma sinfonia de lamentação.
Aquela noite não haveria jogo.
O coro em estacato.A respiração ofegante, antes submersa pelos gritos enlouquecidos dos torcedores, diminuta aos ouvidos civilizados, aceitava altissonante proporção.
Espera...Espera...Nada.
A multidão anestesiada, inebriada de duvidas, havia acabado de entrar em choque.
Todos estavam perdidos (alguns ainda estão se procurando).
Ninguém ousava alçar opções.Não que as trouxessem em mente, mas neste instante o primeiro pensamento lhes passava a cabeça.
A necessidade nos obriga a respirar.
O medo faz o rebanho se juntar. 90 mil cabeças. Nada produzido.
Apenas alguns filamentos se destacaram: dos que esperavam ser ressarcidos, dos sem mandato e dos que cometiam por repetição.Havia também os que se conservaram sentados.
Aves da aflição e do cuidado pairavam sobre a multidão, construíram ninhos sobre sua cerviz.
Nunca se escutou tão bem o grito de desesperança, e o desespero gritava em silencio.Aquilo não estava certo, voltar pra casa fugia de cogitação, não é assim que funciona, e não funcionou e não saciou.Não, pelo menos naquela noite, a fúnebre noite gélida onde a terra desesperou do homem.E o homem mal sabe da terra.
Tempo se perde na elaboração, na criação e na construção.
Mas maior é o tempo em que se assiste sentado na arquibancada.
Pão e circo, a lona substituída, concretizada em tablado de cimento obsoleto.
Um jogo tem tempo: o seu.
O seu tempo em jogo é tempo jogado...
É a sua cabeça rolando no Maracanã lotado.
Esperemos...Esperemos... E nada.
Os Filamentos que saíram pelo portão principal tomavam conta das ruas.
O mundo, o grande mundo é pequeno para esses homens, e a rua é menor que o mundo.Noventa mil pessoas sozinhas em noventa minutos.
Compensemos esse tempo, passemos à ágape.
Mas vontade de comer não veio à boca mais cedo e sentar na sala nunca teve papel, apenas imagem e som.
O estádio lotado foi depressa substituído pelo âmbito familiar...Bola não rolou, novela não funcionou, radio não tocou, e você não esta na linha.
A cidade adormeceu mais cedo aquela noite.
Aproveite esse tempo, use o silencio dos estádios, junte-o com mudez da novela e coloque tudo numa caixa, depois veja se sai musica.
O melhor som é o silencio e do silencio pouco se fala.
Quem assiste a uma aleivosia e a trata no dia seguinte tem receio de falar de si mesmo.Se procuras um amigo navegando nesse oceano de informação é porque tens medo da solidão.Solidão é um sentimento impar e intrínseco, não o tem em comum com mais ninguém.
Depressa se passa, a novela tarda, não falha, o estádio lota veloz e já não mais estais tão sozinho.
Esperou...Esperou...E ainda nada.